Sábado, 14 de Abril de 2012

Regionalização - II: "A LUSITÂNIA NÃO É IBERIA, A IBÉRIA NÃO É LUSITÂNIA"

...............CONTINUAÇÃO DO POST ANTERIOR (MESMO TÍTULO)

 

Mestre Josué Pinharanda Gomes, Pensador e Investigador português -

o "Mineiro" da Cultura Portuguesa.

Um documento para reflexão de regionalistas e anti-regionalistas

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Excerto do Vol. 2, "Patrologia Lusitana" (págs. 17/18), da "História da Filosofia Portuguesa"  do Mestre Pinharanda Gomes, o "Mineiro" da Cultura Portuguesa. Edição Guimarães Editores, hoje propriedade da Livravia Babel, Lda.

(Este excerto foi autorizado pela editora Babel e pelo próprio autor)

 

IMPORTANTE! O autor deste blogue não pretende associar o autor a nenhuma posição perante a temática da Regionalização de Portugal.

 

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"(...) A Hispânia é um microcosmos, disse o geógrafo Méndez Silva, onde há de tudo e nada falta, o que já antes  dele haviam visto os apologistas das esquadras mafamedicas. Microcosmos, cume da Europa, cabeça do boi, é envolvida na sua maior extensão pelo Rio Oceano, Atlântico identificado, apesar do jogo de estilo elaborado por Homero, ou pelos homeríadas, mas reino microcosmos divertido entre dois olhares: o limite atlântico, span, sepharad, ao modo fenício e hebraico, que é a nossa finisterra, como que a sugerir que Hispânia é a Lusitânia com as terras do meio que olham para o mar do meio das terras, de onde se gera o dualismo atlântico-mediterrânico da Hispânia, mas onde por igual se gera o atlantismo da Lusitânia. As diversidades regionais podem não servir de base a divisões de território, nem são de molde a criar regionalismos vinculados a um exclusivismo étnico, mas, no caso Lusitânia/Ibéria, houve lugar a uma configuração excêntrica, centrífuga e aceânica, de tal modo que seria sensato postular que o nacionalismo das nações hispânicas, incluída a nação portuguesa, encontra raízes e águas acolhedoras nos regionalismos. A afirmação de Portugal é um acto de nacionalismo; mas a afirmação da Lusitânia prevalece no acto. A Lusitânia afirma-se pagus, terra nostra, perante a urbe mediterrânica."

"(...)Lusitânia situa-se entre Ibéria e Oceano, ou, na configuração pré-romana, numa forma quadrangular que o domínio romano por considerações estratégicas encurtou, ao dividir a Hispânia em três províncias, a Lusitânia (diminuída da Galécia), a Tarraconense e a Bética. Das três províncias, a que corresponde ao vector do iberismo é a Tarraconense, porque Tarracona, pago ibérico, estende os elos até ao Atlântico, subjugando a Galiza e, o mais curioso a região dos Brácaros. A divisão provincial romana carece de toda a lógica étnico-cultural, mas abunda em intencionalidade dominativa. Tarracona é a Ibéria tal como os iberistas sonham: uma grande província absorvente das que lhe ficam, diminuídas, a seus pés, a Bética e a Lusitânia. A estratégia romana elaorava com base em interpretações comprometidas, pois, com efeito, Estrabão, que era mais submisso do que Mela, confundira  Iberos e Lusitanos, ainda que afirmasse serem, os Lusitanos, os mais fortes dos Iberos. Estrabão tem interesse  em identificar Iberos e Lusos para justificar a extensão da Ibéria tarraconense até à Lusitânia bracarense e lucense;  Pompónio Mela  sabe da forte identidade lusitana face à Ibéria, e convém-lhe sujeitar a fortaleza da finisterra à esperteza da mediterra. Ao não compreender o jogo de intenções, Herculano acabaria por cair na tese negativa da identidade nacional com base regional, por oposição a quem vira melhor do que ele, Bernardo de Brito e André de Resende - o que, aliás,  vem já dito em Leite de Vadsconcelos. A Lusitânia Romana é uma Lusitânia diminuída, talhada a esquadro e régua, segundo o interesse dominacional do império, a Lusitânia natural é todo o oeste peninsular. Vai do Promontório Sacro para além do Minho, até à vertente norte norte-atlântica, e do oeste atlântico até bem dentro:inclui, pelo menos, Mérida e grande parte da Extremadura, por isso chamada Extrema: a fronteira da Lusitânia com a Ibéria. A Lusitânia é o país dos quatro rios: Guadiana, Tejo, Douro e Minho; a Ibéria é a região de um só rio: o Ebro."

publicado por camaradita às 15:16
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Regionalização - I: "A LUSITÂNIA NÃO É IBERIA, A IBÉRIA NÃO É LUSITÂNIA"

Mestre Josué Pinharanda Gomes, Pensador e Investigador português -

o "Mineiro" da Cultura Portuguesa.

Um documento para reflexão de regionalistas e anti-regionalistas

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Excerto do Vol. 2, "Patrologia Lusitana" (págs. 15/16), da "História da Filosofia Portuguesa"  do Mestre Pinharanda Gomes, o "Mineiro" da Cultura Portuguesa. Edição Guimarães Editores, hoje propriedade da Livravia Babel, Lda.

(Este excerto foi autorizado pela editora Babel e pelo próprio autor)

 

IMPORTANTE! O autor deste blogue não pretende associar o autor a nenhuma posição perante a temática da Regionalização de Portugal.

 

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"A Lusitânia não é mito dos humanistas do Renascimento. É, a par de um nome que individualiza uma região planetária, um sinal que indicia uma realidade existencial própria, mesmo que os resíduos utilizáveis pelos sucessores e posteriores, careçam de global inteligência e compreensibilidade. A Lusitânia corresponde à zona húmida da Hispânia, onde se constituiu o meio entrópico de Portugal hispânico. como que diverso da zona de sequeiro da península, onde prevaleceu a masculinidade castelhana, mais arrebatada do que a feminilidade, a frouxidão e a cisma da vertente lusitana. Quando dizemos que antes dos lusitanos o que sabemos é o pouco que sabemos acerca dos povos anteriores - povos sem história - queremos significar que "esse sem história" se refere mais à nossa ignorância do que à inexistência de uma história, mas da Lusitânia sabemos quanto importa a uma definição, ainda que mais prospectica do que perspectiva. Olhada retrospectivamente, a Lusitânia é mais do que uma perspectiva da origem, uma prospectiva do meio em que se afirmou uma entidade singular e diferente. E o carro da criação de Portugal.

A Lusitânia não é Ibéria, a Ibéria não é Lusitânia. Comete erro de juízo de facto e de valor, a corrente histórica e política que força a realidade até ser capaz de meter a Lusitânia na União Ibérica, por não compreender que não há reta união ibérica, mas correta união hispânica. Na União Hispânica cabem Lusitânia e Ibéria, enquanto na União Ibérica só cabem os povos iberos, ou da Ibéria. A tese iberista releva do projeto de sujeição da vertente atlântica à vertente mediterrânica e, por via dela, da sujeição dos povos da periferia ao centro impulsor do iberismo. A União Ibérica, tornada doce paliativo, é na ordem política o projeto anti-autonomista do Duque de Olivares: Braga dominada por Toledo.

A Hispânia tem quatro vertentes: a vertente atlântico-cantábrica, especiosa, ainda que aparentada com a vertente perináica e com a vertente lusitana; a vertente mediterrânica (ibéria); a vertente pirenaica, com Aragão, e que por si mesmo é também específica; e a vertente lusitano-atlântica, em que amplamente se insere a galega ou galaica. É supérfluo considerar as vertentes pirenaica e cantábrica, porque a díade dualista se põe somente quanto às vertentes ibérica e lusitana. Os geógrafos que vieram de fora nunca se enganaram e, por isso, jamais confundiram Lusitânia e Ibéria. A Lusitânia é a vertente atlântica - «Lusitânia... que mare Atlanticum spectar»(7), enquanto a Ibéria é a região do Ebro, que o Mediterrâneo contempla. Em sentido figurado, diríamos que a Ibéria olha para Oriente, enquanto a Lusitânia olha para onde o mar começa e a terra se acaba, por repouso do Sol ocitânico. A diferença geográfica não inclui uma diferença cultural (dos círculos culturais de Frobenius sabemos como em África e na Europa há culturas análogas, ainda que Frobenius haja sublinhado que importa não confundir analogia com homologia), mas deve suscitar a vocação para definir identidade geográfica, identidade étnica e identidade existencial. Lusitânia e Ibéria são duas regiões distintas, tão significativas uma como a outra, mas nem a Ibéria é fusível para a Lusitânia, nem há Lusitânia fusionável com Ibéria. A pré-história dos povos peninsulares é diferente, mas torna-se sintomático o nível diferencial entre projeto ibérico e excurso lusitano, como se a Lusitânia e Ibéria houvessem sido berços de duas diferentes raças humanas, como queria o enciclopedismo evolucionista(8). Na diversidade, as duas versões antigas projectaram-se sempre num dualismo geográfico e histórico, de modo que à díade nómica da Lusitânia/Ibéria correspondeu a díade, algumas vezes antinómica, de Portugal/Espanha."

 

                     CONTINUA POST SEGUINTE....................

publicado por camaradita às 15:09
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